Sobre
Projetos
Mais uma vez é noticiado que a sede da Prefeitura de Salvador será transferida. O futuro local talvez seja o bairro do Comércio, onde uma série de projetos e intervenções artísticas e urbanísticas vem acontecendo de maneira ao longo dos últimos anos. Desde sua construção na década de 80, o prédio, localizado na Praça Tomé de Souza no Centro histórico de Salvador, projetado pelo arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé, desperta uma série de polêmicas. Planejado como uma construção transitória/temporária que foi realizada em 14 dias e constituído por módulos, este prédio guarda a promessa de que pode ser desmontado, transportado e reinstalado em outro lugar.
Qual projeto você proporia para para esse prédio/lugar? E se pudéssemos desmontar a Prefeitura? O que suas partes poderiam virar? Para onde iriam? O que seria instalado em seu lugar? Quais funções teriam essas novas montagens? Como pensar os monumentos e construções a partir do (des)envolvimento, dos trânsitos e da transitoriedade?
Com o intuito de discutir a transferência e as transições, o grupo de pesquisa Urbanidades (PPGAV/UFBA) abriu uma chamada para o receber projetos urbanísticos, arquitetônicos e/ou artísticos para pensar/propor/especular monumentos possíveis e impossíveis tendo como ponto de partida o edifício sede da Prefeitura de Salvador e a Praça Tomé de Souza. Os projetos foram recebidos em resposta a nossa chamada.
Maurício Santil Santos
Currículo resumido:
Doutor em Artes visuais pelo Ppgav-Eba-Ufba.Ministra oficinas de quadrinhos e mosaico em Escolas, Bibliotecas e Centros Culturais. Residências artísticas em Austrália (2009), Portugal (2010) e Espanha (2014).
A obra "Sem sombra de dúvidas" do artista visual Santil, natural e residente da cidade de Salvador fala de modo irônico e questionador sobre a realidade do aquecimento global gerado pelas mudanças climáticas em todo mundo devido ao uso inapropriado dos recursos naturais e todas as questões sóciopolíticas envolvidas. Proponho essa obra e a permanência do prédio da atual prefeitura de Salvador no seu mesmo endereço para evitar ainda mais gastos públicos e preservar o meio ambiente de toda poluição que essa transferência ocasionaria. Penso para esse prédio/lugar a criação de um teto verde e um pátio verde coberto por árvores, para reduzir o gasto de energia elétrica, diminuir a temperatura interna do prédio e limpar todo o ar em volta do prédio,além de estimular o uso de tetos verdes nas edificações ao servir de exemplo. Ao invés de mudar o prédio da prefeitura para outro endereço, transferiria todos os funcionários desse prédio para algum casarão abandonado do bairro do Comércio e restauraria o local e seu entorno, com o dinheiro que seria gasto nessa mudança. No prédio da prefeitura atual após a aplicação da cobertura ecológica instalaria um centro cultural, com cursos, oficinas, exposições de artes visuais, shows musicais e peças de teatro, com acesso gratuito ao público como uma casa que serve ao povo deve ser. Essa proposta é inspirada na obra do artista Hundertwasser e sua teoria na qual refere o ser humano à cinco peles: a primeira pele, a epiderme; a segunda, o vestuário; a terceira, a casa do homem; a quarta, o meio social e a identidade; a quinta, a humanidade, a natureza e o meio ambiente. Utilizo uma fala de Hundertwasser para aproximar do que também entendo do mundo e minha participação dentro dele. "Eu sou tolerante. Mas revolto-me. Acuso. É a minha obrigação. Estou sozinho. Por trás de mim não há qualquer ditadura, qualquer partido, qualquer grupo, nem qualquer máfia. Nem um esquema intelectual coletivo, nem uma ideologia. A revolução verde não é uma revolução política. É sustentada pela base e não é nem minoritária nem elitista. É uma evolução criadora em harmonia com o curso orgânico da natureza e do universo.” O parágrafo acima foi proferido em meados do século XX por Friedensreich Hundertwasser, artista e arquiteto austríaco nascido em 1928 que marcou a história da arquitetura com seu estilo único de incorporar formas irregulares e vibrantes nas obras. Seus projetos eram um verdadeiro manifesto contra a arquitetura racional e repetitiva nos quais há direito de intervenções nas janelas para os inquilinos, pisos irregulares, telhados verdes e vegetação espontânea. Como arquiteto, ele sempre colocou a diversidade antes da monotonia, acreditando no direito de cada indivíduo de modificar a sua casa e expressar sua criatividade. Porém, acima de tudo, Hundertwasser acreditava na importância da identificação do homem com a natureza e o mundo ao seu redor, abordando conceitos relacionados à vida em comunidade e ao respeito pelo meio ambiente. Na obra de Hundertwasser também ele desenvolveu uma técnica para a construção de tetos verdes em prédios inclusive com árvores, reaproveitando a água da chuva para irrigar e o uso de fezes humanas para adubar esta vegetação, fazendo um reaproveitamento direto da natureza e da humanidade. Em Salvador, Bahia, Brasil, local da prefeitura onde o prédio em questão faz parte do V Encontro de Arte, Cidades e Urbanidades, Desenvolvimentos Monumentais: Desmontando a Praça Pública, a obra "Sem Sombra de dúvidas " do artista visual Santil faz uma reflexão sobre o uso do espaço público através também de um termo popular que associa o sinônimo da palavra fezes, a palavra "merda" , sendo usada formalmente em frases como : estou na merda, que merda, deu merda, vivendo na merda... para definir como vivenciar uma experiência ruim em grande escala. Tratando-se de prefeitura e toda "merda" gerada ao longo dos anos, produzidas em todo descaso com a população e o meio ambiente em suas inúmeras violências diretas e intrínsecas, temos adubo mais que suficiente para a procriação de milhares de mudas que poderão ser cultivadas e replantadas para a construção de tetos verdes sobre prédios, utilizando árvores que trazem muito mais benefícios para a saúde humana do que inoperâncias e canalhices de pessoas que deveriam contribuir positivamente.
Ana Luzia B. H do Outeiro
Currículo resumido:
Cursando atualmente Museologia na UFBA e matriculada na matéria Técnicas de Recursos Audiovisuais, me despertou o interesse de participar desta interessante proposta. Formada em Psicologia, tenho experiência nas áreas educativas, relações humanas, de saúde e clínica.
Desmonte da prefeitura em módulos e confecção de um projeto ambulante e nômade com a reutilização dos mesmos. Numa proposta de interação e diálogo com a população, buscar qualificar espaços carentes de sistematização da cultura ancestral da cidade e identificar outras necessidades educativas. Oportunizar dessa forma o desenvolvimento de talentos oriundos do meio, através de cursos que valorizem e ofereçam oportunidade de crescimento pessoal e aprendizados. Executar as aulas programadas com a inclusão de material didático e alimentação no seu final.Dessa forma, propõe-se facilitar a proatividade de indivíduos orientados a enfrentar os desafios cotidianos e inserção no mercado de trabalho. No local do prédio da prefeitura a ser desmontado, a sugestão é a da criação de um ambiente cultural e de lazer, com um museu para exposições e venda de arte ancestral, dentre outras obras; espaços programados para eventos culturais, assim como atividades educativas e festivas para todas as idades. Nesse local, alguns módulos da prefeitura desmontada poderão ser também aproveitados. Um importante projeto social para atender as demandas e necessidades da população e da cidade de Salvador. OBS: as fotos anexadas é uma criação minha em conjunção com a Inteligência Artificial.
Pedro Henrique Miranda Bahia
Currículo resumido:
Graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), na qual já participou de projetos de extensão relacionados ao fortalecimento da cultura local no Calabar (Projeto Corro no Meio das Pedras) e relacionados à Restauração de Bens Móveis na Reitoria. Atualmente, ele se encontra desenvolvendo o Trabalho Final de Graduação, aonde pretende trabalhar com instalações urbanas nas praças do Centro Histórico.
"Floripes" é uma obra em processo de construção que compõe meu Trabalho Final de Graduação. Esse trabalho tem a intenção de retratar um pouco da minha experiência no Centro Histórico de Salvador. Durante os anos em que vivi aqui, percebi uma certa inconsistência na imagem que se quer vender do Centro Histórico de Salvador. Ela se torna quase uma Anamorfose Urbana - imagem distorcida que só pode ser percebida sem distorção a partir de um ângulo específico -, no sentido que, enquanto ela se mostra restaurada em algumas de suas ruas, basta fazer uma curva errada para mostrar o estado de grande parte do bairro no geral. Pensando nisso, propus uma série de anamorfoses pelas praças do Pelourinho, que retratem alguma imagem dessas praças desse modo distorcido e conte alguma história que existe por trás dessa fachada, que mostre a violência que isso trouxe e traz para o espaço. "Floripes" entra nesse contexto da Praça Municipal, abaixo do edifício da Prefeitura. Ela questiona o intuito real do arquiteto, que era construir uma praça pública no espaço aberto abaixo do prédio e propõe uma intervenção de corpos LGBT nesse espaço, que sempre existiram no Centro Histórico, mas quase nunca são lembrados. Desse modo, Floripes é trazida à cena, a primeira autointitulada travesti da Bahia e que, normalmente, descansava próximo à Praça da Sé.
Estefânia Wasen Weber
Currículo resumido:
Estefânia: Cria de Alvorada (Rio Grande do Sul), encontrou-se no cicloativismo em 2016 e desde então se interessa continuamente pelas questões de urbanismo e mobilidade ativa para além da academia. Arquiteta e Urbanista de projetos multiescala, trabalhando majoritariamente em estudos de viabilidade e conceituais para instituições, espetáculos e exposições, tendo interesse especial pelas manifestações artísticas brasileiras e sua valorização interdisciplinar. Kboco: O trabalho de Kboco se alimenta de diferentes registros e procedimentos, promovendo uma fusão de tempos e lugares distintos. Símbolos arquetípicos que perpassam diferentes civilizações e culturas formam uma espécie de trama estruturadora de toda sua obra, resultando em uma capacidade de gerar novos sentidos a partir da contraposição de diferentes referências.. O orientalismo de sua produção advém do apreço pelos vencidos, pelas culturas subjugadas pela civilização ocidental ou marginalizadas por questões sociopolíticas.
Uma antiga inquietação a respeito da ocupação da cidade foi o que nos uniu a pensar esse projeto. Que lugares estão mesmo disponíveis a todes? A cultura da bike, do skate, do grafite (ou pichação, quem distingue?) são manifestações artísticas do cotidiano, assim como faziam nosso ancestrais. A praça Giramundo surge da busca por uma arte que transcenda sua função contemplativa e se integre ao cotidiano universal, como elo entre natureza, espiritualidade e condição humana. Inspirado pelas filosofias ancestrais, pelas reflexões de Georges Bataille e pela monumentalidade sensível de Rubem Valentim, o projeto se apresenta como uma experiência coletiva, onde a expressividade e a continuidade ressignificam o espaço urbano e a vida comunitária.
Wagner Pyter Fernandes Silva
A proposta "Museu da Origem" transforma o prédio atual da Prefeitura em um museu vivo, que desmonta narrativas coloniais e se reconstrói como um organismo em constante diálogo com a memória coletiva e a inovação tecnológica. Elementos estruturais seriam redistribuídos em outras praças da cidade, recriando espaços de convivência e integração comunitária, enquanto o prédio principal seria dedicado à história ancestral da Bahia, com foco nos sambaquis e nos zoólitos. Este museu interativo utilizaria tecnologias imersivas para conectar passado e futuro, servindo como um espaço educativo, cultural e sensorial, onde a memória e o pertencimento se reconfiguram.
Currículo resumido:
Wagner Pyter é multiartista, poeta e performer com formação em Arte e Tecnologia pela UFBA. Suas práticas artísticas transitam entre fotoperformance, poesia e intervenções urbanas, com ênfase na reconfiguração do espaço público e na memória coletiva das cidades. Desenvolve projetos que exploram a relação entre as práticas culturais e a cidade, como "Exorcismos Urbanos" e "Metro Poemas", que buscam transformar espaços urbanos em campos de resistência cultural e reflexão sobre a identidade e o pertencimento na metrópole.
João Fernando Neri de Souza Santos, Giovanna de Barros Ornelas Sousa, Eduardo Pereira da Silva
Currículo resumido:
Somos três estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) com experiência em escritórios de arquitetura. Atualmente cursamos a disciplina de Ateliê Integrado de Preservação do Patrimônio Cultural, o que despertou o interesse em participar da seleção.
No contexto da nossa proposta, a cortina se abre para um segundo ato. Os pilotis que ora sustentaram o prédio da Prefeitura Municipal são dos para o cume da Ladeira da Conceição para sustentar peças arqueadas alusivas à dinâmica secular estabelecida pelos artífices dentro dos anéis. A intervenção artística com caráter de denúncia teria o intuito de chamar a atenção dos cidadãos soteropolitanos para a problemática do território, além de carregar o peso simbólico de arrancar estruturas do local de efervescência do poder político para serem sobrepostas por narrativas populares, as quais foram feridas por ações de apagamento. Os arcos em contraste com o concreto dos pilotis anunciariam o alvorecer de uma nova era.
Bernardo Oliveira
Currículo resumido:
Bernardo Oliveira nasceu em 1991.Atualmente vive e trabalha em Barreiras/BA. Graduado em Licenciatura em Desenho e Plástica pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (2019); Especialista em Gênero, Raça/Etnia e sexualidade pela Universidade Estadual da Bahia/ UNEB (2024);Técnico em Processos Fotográficos- ICEIA/ SEC-BA (2023) Desde 2012,desenvolve projetos em fotografia, videoarte, performances e colagens manuais.
PAISAGENS AMORFAS, é um projeto visual produzido em colagem manual sobre recortes e sobreposições de imagens sobre as modificações produzidas em função de uma sociabilidade que ao mesmo tempo propõe aproximações do "humano" em relação com o ambiente " natureza", produzindo um choque visual embaraçado, embaralhando imagens, criando uma zona amorfa, sem forma e em constante estado de mudança.
Chayenne Holanda Pereira
Currículo resumido:
Sou uma arquiteta e urbanista recém-formada, com entusiasmo para desenvolver projetos criativos e que façam a diferença no dia a dia das pessoas. Acredito que os espaços urbanos devem ser pensados para serem vividos plenamente, com funcionalidade e significado. Encontrei neste projeto a oportunidade ideal para mostrar minha visão e meu potencial, contribuindo com soluções práticas e ao mesmo tempo inovadoras. Meu objetivo é criar ambientes que impactem de forma positiva e que sejam bem aproveitados por todos.
O projeto propõe uma passarela-mirante que oferecerá uma vista panorâmica da Baía de Todos os Santos, muito procurada por moradores e turistas, especialmente pela manhã e ao entardecer. Pensando também na noite, o espaço contará com áreas para alimentação e comércio, principais focos da região, além de atividades que promovam a movimentação local. A estrutura, planejada em madeira, aproveitará o antigo espaço da prefeitura, criando uma conexão visual com a área comercial. À noite, o local poderá ser utilizado para pequenos eventos artísticos, garantindo atratividade e vivacidade durante todo o dia e noite
Daniel Lisboa
Currículo resumido:
Daniel Lisboa (45) é formado em Cinema. Produziu diversos filmes desde 2002 se firmado como um dos principais diretores baianos. Foi premiado em importantes festivais nacionais e internacionais como o 15º Festival Internacional de Arte Eletrônica – Videobrasil em SP com seu polêmico filme “O Fim do Homem Cordial” em 2005 e como Melhor Filme na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes com o longa-metragem Tropykaos em 2016. Em 2020 entrou no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFBA onde desenvolve sua pesquisa de mestrado “Sistema Desviário - Entropia Visual no Espaço Urbano” sobre arte urbana.
pré-ideia De Tomé de Souza a Bruno Reis, quanto se fez e se desfez nesse jogo do tempo, com o espaço e os desejos? Desde as primeiras invasões quantos crimes foram cometidos nestas terras chamadas de Brasil? Certamente, a grande maioria deles, jamais julgados e sentenciados. Barbaridades soltas na brisa da impunidade. A carga energética dessas injustiças seculares talvez seja o grande entrave psico/espiritual que nos assola. Mesmo com toda a boa vontade das reparações históricas parece faltar algo, faltar ar, faltar fogo. Algo precisa queimar para purificar/atenuar toda maldade ofertada nesse território e que persiste até os dias de hoje. Dessa forma, ao ser provocado pela ideia de desmonte de um espaço tão fundamental nas decisões e lutas políticas da cidade de Salvador, vide a revolta do Busu e as manifestações a favor da cassação de ACM em 2002, onde o povo se reuniu em frente a prefeitura para cobrar respostas e seus direitos, proponho a criação de um FOGODROMO nesse espaço. O FOGODROMO seria uma grande arquibancada virada para a baía de todos os santos, onde os populares poderiam assistir a queima de mega-fogueiras com a baia ao fundo. Esses fogo, elemento purificador universal, criará uma conexão cósmica como nos rituais hindus conhecidos como Agni-Hotra, onde no nascer ou por do sol o fogo do sacrifício é acesso para que em união com a estrela solar, todo o ambiente seja purificado. Essas fogueiras, que teriam cerca de 20 metros e que poderiam ser vistas de toda a baia inclusive da Ilha de Itaparica, teriam também a alegria das fogueiras de São João. Ao mesmo tempo seria a fogueira da justiça, a fogueira de Xângo, com sua força transformadora. Mas também o fogo emprestado pelo urubu-rei e pela onça pintada como creem os povos originários. Uma fogueira semiótica, um feitiço urbano contemporâneo.

























